segunda-feira, 21 de abril de 2014
STOP
Pára!!! Cala os teus pensamentos, deixa de ouvir, fecha os olhos e grita a ninguém o que vês! Difícil descrever o silêncio o vácuo a escuridão e o quão desconfortável é estar inserido nele e como ficam sensíveis os nossos sentidos expectando o obscuro desconhecido. Quando a luz se vai ninguém cruza os braços, quando a luz se vai todos procuramos, desesperadamente, a luz. A escuridão cura-nos a cegueira diurna, abrandamos os passos, sentimos o espaço, pressentimos os degraus e ficamos preparados para a queda. Nos momentos obscuros a distração não é julgada nem o erro será condenado, simplesmente nada se vê e tudo se sente. A luz tudo mostra, mas a queda é inevitável, imprevisível e a denuncia é tão certa como exposta pois andamos a correr, tropeçamos e caímos, não sentimos nem contamos, nos movemos distraídos. Queremos e corremos, competimos e vencemos! Glórias passam num "flash" e depois desesperamos por aquilo que sempre falta e se prende com um "slow" e com um "down". Abrandar, esticar as pernas, deixar os meios de transporte rápidos para, propositadamente, demorar e até chegar atrasado, mas desfrutar o caminho até chegar ao destino pretendido. O mesmo caminho que percorres em dez minutos passou a durar vinte e cinco minutos e transformou-se. Sentes as buzinas, os faróis e os pneus a passar por ti, a brisa te bate e o sol te encandeia, mas continuas a andar, conversas alheias, alguém que tropeça, varandas ocupadas, cheirinho a comida. Uma senhora bem vestida, outra apressada , alguém a apregoar e não ficas despercebido um "bom dia" te dizem e uma criança te sorri, alguém te confunde te chama e tu acenas envergonhado. Mudou o tempo, fica escuro e começa a pingar, tu e outros ao monte debaixo de varandas para abrigar, ninguém se conhece mas todos se olham e até começam a conversar. A chuva pára e a conversa continua e alguém te acompanha, mesmo atrasado um café não recusas. Já atrasado chegaste ao destino, meio molhado, cansado e até suado. Competiste, venceste, ultrapassaste o desconforto não te distraíste nem caíste, sentiste e viveste. Vinte e cinco minutos preenchidos e uma história, que apesar de banal, te pertence tapou a lacuna. Uma viagem longa guiou-te à glória, mas ainda melhor, fez-te viver nela.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Circuitos em curto circuito
Não procuro a perfeição nem pretendo ser compreendida o saber não ocupa espaço e a dúvida mantêm-me viva. Afinal, o que me inspira? De certo que a resposta estará sempre condicionada ao lugar, ao tempo e a alguém. A minha inspiração não me pertence de todo. Grande parte daquilo o que somos não é pelo nosso feito, mas sim o efeito de outrem. O simples facto de existir é antagónico tanta complexidade no meio de tanta simplicidade a perfeição é ilusória e relativa aos olhos de muitos e aos meus nem apela. Marcar pelos feitos, marcar pelo ser, marcar por conhecer é ser eterno e quem não inveja a eternidade, evitando viver a pensar no final, sempre a construir ou a descansar sempre prontos para mais um desafio. Nenhum dia é em vão, nenhum dia é indiferente, cada dia conta uma história, importa contá-las e vivê-las como novas como diferentes aventuras em que um dia somos heróis e heroínas, noutro somos personagens secundárias e noutros até podemos ser narradores. Pormenores, esses escapam e como é marota a felicidade que se apresenta muito subtil e disfarçada, mas sempre a surpreender, sempre inesperada. Procuramos palavras e não damos o devido valor à palavra não pronunciada, mas sentida e verdadeira, pois um silêncio pode significar muito. Mas qual será a mais importante a escrita ou a pronunciada? A escrita fica registada podemos lê-la e relê-la, por outro lado a pronunciada requer contacto visual e uma voz com palavras tremidas, indiretas, diretas, pausadas e até com clareza e o seu significado não é tão importante como os sinais que podemos interpretar devido à nossa fantástica e denunciante expressão oral. Com isto, afirmo que não são as palavras que procuro, mas os sentidos, sinais e direcções. Não posso esperar ser compreendida por alguém, muito menos compreender outrem, limito-me a respeitar e impulsionar sonhos e vontades, meter a chave na ignição rodá-la para fazer trabalhar o motor do mundo.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Peça por peça...
Por mais curioso que pareça nem todas as peças do puzzle encaixam e num desenho complexo elas até nos iludem e encaixam, mas no fim há sempre uma ou mais peças que ficam por fora. Para montar um puzzle não podemos apenas dar uma vista de olhos pelo seu aspecto. Exige tempo, paciência e uma relação intima com cada peça, pois cada uma delas esconde traços que enganam os distraídos e abrandam os apressados. Pelo que vejo, um puzzle exige muito mais do que aparenta, portanto não se deixem iludir. Uns com peças pequenas e outros com peças maiores, com desenhos já formados que foram desmontados perdendo o seu sentido e que aquele que se aventura a montá-lo oferece o seu tempo para lhe retomar o sentido e a beleza. Somos como um puzzle! Constantemente desmontados, com algumas peças iludidas, mal montadas e com falta delas, sem sentido embora nunca esquecidos do resultado final. Sós nada conseguimos, terá que haver um curioso, um jogador, um aventureiro que faça a tentativa e nos tente montar. Por vezes mal montados, inacabados, montados, desmontados. Relevante será a relação de quem monta e desmonta, o desafio prende-se em descobrir, tentar, não desistir e concluir. Se este puzzle é demasiado complicado e não o consegues montar, desmonta-o por completo, não deixes o trabalho a meio, espalha as peças e não penses mais nele, pois é certo que existe sempre aquele que nunca conseguirás montar, mas que alguém um dia o irá fazer e lhe vai restituir o sentido e o brilho ligando as peças ao sítio certo , sendo que, o conquistou e o montou.
domingo, 6 de abril de 2014
Uma tela, uma obra literária, uma obra musical, uma gaveta...
Existem diversos olhares para a mesma situação e todos eles válidos pelo valor conquistado da liberdade de opinião. O olhar de um artista pode, ou não, ser compreendido, mas o que constitui uma arte e o que é uma arte? Quem atribui este estatuto é um avaliador? E quais as suas habilitações para este cargo? Estará ele acima da arte para avaliá-la? Não existem distinções de valores entre obras de arte a única classificação aceite é o valor máximo e incontestável. Todos temos um olhar crítico e avaliador acerca de toda e qualquer situação banal e extraordinária. A organização é imprescindível ao ser humano da mesma forma que temos a necessidade de guardar as roupas em gavetas também guardamos pessoas em gavetas catalogando-as. Uma menina da cidade quando passa numa freguesia remota deixa o seu cheiro como pegadas em areia que são seguidas pelos curiosos. Aos olhos de quem lá vive ela é uma novidade e até a sua saia justa, o seu decote ousado e o seu cigarro é sinal de novidade e reflexo dos progressos da cidade. Por outro lado, uma menina de freguesia no meio de uma cidade adopta hábitos, horários, stress, segue a moda, conhece novos pensadores, sai à noite e vai a cafés como qualquer outra menina da cidade, mas aos olhos da freguesia que a viu crescer o seu cheiro desperta coscuvilhice, a sua saia justa e decote abrem asas à imaginação das mentes tradicionais e todos os seus hábitos reflectem a sua leviandade. Facilmente catalogada. Desta forma vivemos numa sociedade que arruma nas suas gavetas quem bebe uma cerveja como alcoólico, uma mulher que beija outra mulher como lésbica, homens de mãos dadas são gays, um casal de amigos são namorados, quem tem tatuagens é drogado e quem tem carros "top" é traficante. Realmente há quem não saiba, minimamente, arrumar as suas gavetas. Seremos como qualquer avaliador de arte que está acima da obra que observa? Não estamos acima de ninguém! Todos temos olhares críticos e gavetas desarrumadas, mas tudo o que observamos é tão único e passageiro. Não esqueçamos que também somos peças arrumadas e quem nos arruma terá algum valor? A verdade é que todos somos avaliadores e todos somos peças de arte, mas a arte é aquela que permanece.
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