sexta-feira, 19 de abril de 2024

Uma ferida aberta na alma que ainda sangra

Olá,
Quando recebes um teste positivo há toda uma preparação para "tornar-se Mãe". É um misto de alegria, orgulho, confusão, medos e o teu sistema hormonal faz um festival de vinte e quatro horas. O teu corpo deixa de ser só teu e todas as tuas decisões, a partir daquele momento, tornam-te mãe, pois são feitas a pensar naquele ser que está a crescer. Deixas de pensar só em ti e vais priorizar aquele ser. Vais ter enjoos ou até nem tê-los, vais sentir-te cansada, vais ter muita fome ou nenhuma mas, acima de tudo, vais ter muito sono. No início, até nem pensas muito, nem parece real, mas quando os sintomas começam a aparecer, quando o teu corpo começa a mudar, quando as roupas deixam de servir só consegues pensar naquele ser. E vais fantasiando, vais idealizando, vais sonhando. Cada ecografia, cada vez que sentes aquele coração a bater, aumenta a ansiedade em conhecê-lo. Ao mesmo tempo vêm as dúvidas, se serás capaz, se serás uma boa mãe. E os medos, se nascerá saudável, se a gravidez correr bem até ao final, a hora do parto. Mas também és invadida pelas roupinhas fofas e pequeninas, brinquedos, berço, chupetas, meias, sapatos e suprimes esses medos com tudo de bonito que há para bebés. Vês a tua barriga crescer, sentes o teu bebe a mexer e todos os teus planos deixam de ser só sobre ti e passam a ser vossos. Quando já está quase a nascer, tu já não consegues imaginar a tua vida sem ele. Quando a altura se aproxima já preparaste as gavetas com as roupinhas lavadas, o berço já está montado, as fraldas e os produtos de higiene estão ali prontos a serem esvaziados. Os peluches sensoriais, a boneca feita á mão de propósito para ela.

 Naquele dia, eu tinha acabado de preparar o quarto para a chegada da minha bebe
Sentia um corrimento de águas e ao final do dia fomos ao bloco de partos com suspeita de rompimento de bolsa do líquido amniótico. A médica fez-me ecografia e CTG e estava tudo bem. Enquanto estava a fazer o CTG, gravei um vídeo e enviei ao pai, a minha mãe e a mãe dele para lhes tranquilizar que estava tudo bem e ficamos a sentir aquele coração forte por vinte minutos. A médica mandou-me para casa.
 A meio da noite acordei com dores, estava á espera que diminuísse a intensidade da dor para começar a contar o intervalo das contrações, mas não houve intervalo, não houve sangue, não houve águas, apenas dor, uma dor como nunca, uma dor imobilizante. Era uma noite de muita chuva e a caminho do hospital a dor só aumentava. Nem me consegui sentar na cadeira de rodas quando chegamos e precisei de ajuda para sair do carro. Eu tremia de dor que nem conseguia dizer o meu nome na admissão do hospital. Caiam-me lágrimas e eu gemia, soprava de dor. Quando cheguei ao bloco de partos, a assistente que me atendeu estava indiferente á minha dor, mandou me tirar a roupa e deitar-me e eu a muito custo tentei e pedi-lhe ajuda, mas ela recusou-se, disse-me que eu conseguia sozinha. Quando começou a fazer o CTG eu soprava para tentar atenuar a dor, mas ela disse-me que era falta de educação respirar para cima dela. A dor foi passando e ela disse-me que a máquina do CTG estava avariada, não conseguia sentir o coração. Minutos depois chegou a mesma médica que tinha-me atendido horas antes e chamou-me para outra sala, eu já não tinha dor, e conseguia andar. Fizeram-me ecografia e ela disse-me que não havia batimento cardíaco do bebe.