Fechei-me para obras. Sem orçamento para começá-las.
Fechei-me e pronto. Um motivo sem aviso que condiciona a
humanidade: Improvisar, desenrascar, inventar, criar. Não improviso, eu paro.
Fico muda, surda, paralisada sempre que a vida me apanha de surpresa e
obriga-me a fazer alguma coisa. Eu paro e contenho aquilo o que sinto emergir
dentro de mim. Eu sou um insignificante átomo num cosmos que sobrevive sem mim.
Porquê viver? Eu existo, mas para quê? Para ser feliz? Sempre achei a
felicidade uma armadilha, faz-nos sacrificar tanto por algo que nem sabemos o
que é. Ao nascer, cada um de nós é a felicidade de alguém, e nem temos
consciência disso. Incutem-nos a obrigação de sermos felizes, como um propósito
de vida, para nos controlarem. Controlam crenças, culturas, consumo, estruturas
sociais. Somos um exército comandado pelos tolos que nos prometem a felicidade. Ninguém nasce para ser feliz! Sofremos desde o primeiro fôlego, porque
começamos a sentir. Fechei-me para obras, porque sei que a minha vida não é
para ser feliz. Vou sobreviver sem impor-me. Ser a felicidade de alguém é ter o
poder sobre ela e eu não quero dar este poder a ninguém.
Fechei-me para deixar de sentir e ser, finalmente, senhora de mim.
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